Divisor de águas

Disseram-me que relaxasse. Calma, paz, destemor… Sinceramente, não consegui encontrar nenhum desses sentimentos quando chegou, enfim, a hora. É fácil pedir calma quando você é somente espectador (mesmo que indireto). É simples. Vivencie e então saberá o quão distante da paz fica o seu mundo.
Disseram-me que estivesse preparada como se fosse a coisa mais banal do mundo. Não é. Não se sabe o que vai acontecer com seu corpo e sua mente depois que tudo acabar. É um passo em direção a um mundo inteiramente novo.
Não sei bem o que ele queria me dizer com aquele olhar, se buscava me trazer conforto, consolo, coragem. Eu tremia. Arrepios percorriam meu corpo por inteiro, e ele continuava a me olhar. “Vai ficar tudo bem”, ele dizia, em voz baixa. “Você está pronta?”. Não, eu não estava. Mas não queria mais adiar o que viria. Porque além de medo e nervosismo, eu sentia uma ansiedade estranha e inquietante.
Então eu senti dor.
Meu Deus, como doía. Achei que meu corpo inteiro estivesse em chamas. Algo parecia perfurar meu baixo-ventre, rasgar-me, implodir-me feito uma construção antiga. Apertei os olhos e tentei não pensar em nada. Era inadiável, embora eu quisesse escapar dali, fugir para longe, imergir na água gelada e me quedar imóvel, imóvel…
“Eu posso agüentar”, pensei. “Eu posso, eu vou…”.
— PARE!
A dor irrompeu meus limites e eu ouvi o som da minha própria voz. Ele, alarmado, aproximou o rosto do meu.
— Você está bem?
Mais uma vez, claro que não estava. Mas assenti. Tinha pressa.
— Continuamos? — ele intimou, em voz mais baixa ainda.
— S-sim.
Daquele momento em diante, ele não tirou mais os olhos dos meus. E fiz daquele olhar meu ponto fixo e uma promessa silenciosa de que agüentaria até o fim. A dor veio novamente, insuportável, impositiva e roubou todas as minhas células para si. Mas era o preço a pagar pela delícia. Eu estava disposta. Eu não tinha escolha.
Até que, enfim, num último assomo, a dor parou. E a coisa mais inexplicável me tomou por inteira. A gente acha que contém todo o amor do mundo no corpo, mas eu percebi, naquele momento, que amor só é amor de verdade quando toma forma. Chorei.
Amei de verdade quando o médico pôs meu primeiro filho nos meus braços.

Lembrança

Lembro bem. Parecia tão despretensioso, tão arbitrário. Sim, me recordo. Não sei de onde tomei coragem. Nunca foi muito do meu feitio tal atitude. Nunca saberei o que me deu. Nem se dará de novo. Mesmo porque não tenho certeza do que fiz. O que, justamente, mais me aflige. Sim, me lembro. Não estava em mim, aparentava ser outro. Insistia em algo novo, em algo que me revigorasse. Precisava naquele momento. Sim, me recordo do que disse. E do que ouvi também. Realmente foi bom. Não pretendia. Mas, nem sempre agimos como pretendemos. Não há mártires eternos. Ou até há, vai saber.  Só espero que não exista de verdade. Lembro de como olhamos, de como sorrimos. De como fomos até certo ponto discretos. Tudo bem que não era nossa intenção, mas por um momento foi. Recordo-me das belas taças, dos belos pratos também. Lembro de muita coisa, por incrível que pareça. Não, não estou insinuando que você não se lembra. Longe disso. Sei que se recorda muito bem. Aliás, acho que remete a isso mais do que eu. Se é que realmente é possível. Me pego pensando no que estaríamos fazendo se não estivéssemos lá. Se aquele intervalo de tempo não tivesse existido. Talvez fosse melhor. Nunca saberemos. Até gosto desse tom de incerteza. Recordo-me do quão nervosos estávamos. Tal como duas crianças brincando as escondidas nos arredores de casa. Sempre com um olho no peixe e outro no gato. E se descobrissem? O que seria de nós? Confesso que por um instante passou pela minha cabeça desistir. Mas, algo, que não faço ideia, me atraia. E incentivava. Uma ingestão de audácia oriunda de não sei onde. Sim, me lembro do caminho percorrido a passos estreitos e sorrateiros. Não tínhamos muito tempo antes que dessem conta de nossa ausência. O que acentuou ainda mais a angústia da situação. Só agora me dei conta do risco que corremos. Poderíamos nem estar mais aqui. Por sorte estamos. Recordo-me do ambiente mesmo sem a presença de tanta luz. Era bonito. Um ar bucólico não muito habitual se fazia presente. O que tornou cada vez menos prosaica a ocasião. Só que não passam de lembranças, de meras recordações.  Creio que não devemos novamente. Sabe aquilo que prometemos jamais esquecer? Acho que já está na hora de deixarmos de lembrar.

Alfa

Ela tinha dezessete anos, mas podia passar por vinte e poucos sem levantar suspeitas. Um metro e setenta e três, cinquenta e seis quilos, embora quando a encontraram pesasse pouco mais de trinta. Seu corpo se encontrava em um estágio avançado de decomposição. O cheiro forte e a presença de aves carniceiras rodeando o local levantaram suspeitas nos vizinhos do terreno, mas não houve nenhum chamado para a polícia até uma tarde de abril, quando uma criança correra atrás de sua bola de futebol e encontrou o corpo.

Identificaram-na e a polícia entrou em contato com sua família, que havia entrado com uma queixa em relação ao desaparecimento da filha havia um mês, mas nada fora realizado e tomaram o caso como fuga do lar, muito comum nessa idade. As fotos que a família divulgou encantaram os policiais e causaram comoção na mídia e no povo. O caso teve repercussão nacional, matérias e matérias em todos os meios de comunicação foram produzidas sobre os acontecimentos – um canal de televisão chegou a exibir, em uma semana, seis programas sobre o assunto, sempre exibindo as imagens da jovem sorrindo, feliz, evocando toda a vida que teria pela frente não fosse o trágico destino que a esperava; um jornal chegou a imprimir um pôster em página dupla, estampando sob seu sorriso letras vermelhas que diziam: “ONDE ESTÁ O MONSTRO?”.

O corpo apresentava severas escoriações, eram claras as lesões em seu crânio – uma rachadura no osso frontal, achatamento no parietal -, os ossículos das mãos e pés se encontravam esmigalhados e alguns dentes quebrados, três costelas estavam quebradas. Seus órgãos internos não passavam de uma papa e os testes patológicos eram inconclusivos. A morte ocorrera há cerca de três semanas, mas a causa era não esclarecida: podia ter morrido de um ataque cardíaco ou ter sangrado até a morte.

A polícia começou a investigação buscando possíveis assassinos com depoimentos de seus pais, mas eles disseram que até onde sabiam sua filha nunca relatara qualquer confronto entre algum colega e ela. Revistaram seu computador pessoal à procura de qualquer registro de conversas que pudessem indicar um caminho a ser seguido na investigação, mas nada estava guardado em seu disco rígido, que continha apenas músicas ilegalmente adquiridas, filmes e seriados idem e fotos de sua câmera digital, que revelavam a morta como uma adoradora de paisagens, pássaros e pôres do sol. Seu nome era Andrea e, de acordo com depoimentos colhidos de colegas da escola que frequentava, era uma boa aluna. No fim do ano, era seu último ano de ensino médio, prestaria vestibular para engenharia ambiental. Sua turma de colégio, um tradicional, religioso, dissera que era uma garota calada em sala, sem perturbar professores ou alunos. Os professores disseram que não era uma aluna que se poderia chamar de genial, tampouco de medíocre. Seus pais também disseram que nunca apresentara um namorado à família, e relatava que nunca houvera caso de briga em família, sendo ela considerada por seu pai “uma menina calma e tranquila, sem rebeldias ou desobediências, a filha que pedi a Deus”. A mãe se apresentava chocada em seus depoimentos, sendo de pouca utilidade. Seus colegas de colégio informaram que era uma garota calada em sala de aula e estava sempre lendo. Quando perguntados sobre interesses românticos de Andrea por algum colega a resposta unânime era que não, que ela nunca se relacionara com nenhum dos colegas e que, para falar a verdade, ela quase não tinha amigos, Duas de suas colegas mais próximas, que freqüentavam a casa de Andrea ocasionalmente, disseram que a vítima estava se relacionando com um jovem de vinte e três anos, que aparecia duas vezes por semana no pátio da escola na hora do último sinal e ficava a conversar e rir. Disseram que a amiga o apresentou como um amigo, não como namorado, em certa ocasião, resultando em mais duas ou três conversas entre o jovem e elas. Ambas choravam muito ao interrogatório, mas ainda revelaram o nome do universitário: Fabrício; disseram também que ele se apresentara como estudante da escola de direito do estado, no entanto, não sabiam onde ele morava. Disseram também que nunca viram Andrea beijá-lo e jamais os ouviram trocar qualquer tipo de carícia em público além de elogios afáveis como “você está linda” e “você é muito interessante”.

A polícia encontrou Fabrício chegando em casa depois de uma quinta feira de aula. Era um tipo pequeno, não mais de um metro e setenta e cinco, com uma certa protuberância abdominal e ainda apresentando espinhas vermelhas na cara branca, a barba pro crescer ajudava a disfarçá-las. Perguntado se poderia reservar um pouco de seu tempo para conversar, reagiu de forma defensiva, e foi preciso insistência da parte policial até um convite para entrar em sua casa. Ao receber a notícia da morte da amiga, pareceu chocado, surpreso com tal informação e seu rosto expressou indignação ao perceber que ali estavam homens que o consideravam um dos principais suspeitos do crime. Disse que de nada sabia e que tinha um apreço enorme por Andrea. Quando questionado em relação a um possível envolvimento sexual entre os dois, sorriu e perguntou: “tudo para vocês é uma grande relação sexual, não é mesmo? no fim de tudo, a vida e a morte se resumem a sexo.” e deixou a pergunta sem resposta por algum tempo, até um dos policiais, eram três que o visitavam, resolver intervir dizendo que Fabrício sabia o quão importante são esses detalhes e que se ele realmente se preocupava com a menina morta, colaboraria com tudo o que pudesse. Ele acenou com a cabeça, encarando cada um dos três visitantes, e disse que sim, que havia um envolvimento sexual entre eles, mas que não era o único. Havia outros dois que ele sabia que iam para a cama com ela, conhecera-nos numa noite em que ela saiu com ele e o dissera que estava trepando com os dois. “Ela era do tipo boêmia, sabe? Adorava homens das artes.” Os nomes que Fabrício entregara eram de Carlos e Maurício, e o que ele sabia sobre os dois é que o primeiro trabalhava como chef de um restaurante e músico numa banda chamada “As sementes ruins”. Perguntado sobre Maurício, soube informar que ele era da mesma banda, e que tinha certo conhecimento sobre pintura, ao menos foi o que Andrea falou ao apresentá-los. “Ela disse que ele era o melhor pintor que ela já tinha visto e que ele sabia de tudo, dos melhores artistas, das melhores tintas e melhores técnicas.” A polícia saiu da casa ao ouvir seu álibi: estava nos estados unidos desde janeiro, tendo retornado há cinco dias, fato provado, enquanto a última vez que alguém a viu com vida foi há quatro semanas, Fabrício estava liberado.

A investigação seguiu, então, para a próxima pista: Carlos e Maurício. A banda faria uma apresentação na noite de sexta feira em “Um buraco qualquer”, uma boate onde drogados, pseudo revolucionários e pretensos artistas iam para desfilar seus egos. Encontraram Maurício primeiro. Ele, um sujeito bonito, de seus vinte e cinco anos, olhos castanhos claros, um queixo quadrado e a barba por fazer, no entanto tinha o aspecto sujo e sua roupa tinha manchas estratégicas de tinta. Ele conversava com uma garota linda, de não mais de dezoito anos, e dizia como adorava o surrealismo e a maneira como Dali expunha seus sonhos sem se preocupar em retratar qualquer coisa lógica, sem se preocupar com os julgamentos dos outros, ou de como a crítica poderia ver suas obras. A garota parecia hipnotizada pela conversa, seus olhos o encaravam com fascínio e adoração, como se dizer aquelas palavras, decoradas de uma revista de sala de espera de consultório médico, fizesse dele um homem interessante e exímio conhecedor das artes plásticas.

Maurício tentou dispensar a conversa com a polícia dizendo que estava acompanhado e ocupado naquele momento e que se quisessem papo com ele teriam de esperar até depois do show, mas logo pareceu se dispor a conversar quando mencionaram que ele era um dos principais nomes na lista de suspeitos do sumiço e assassinato de Andrea e que, se não colaborasse ali, talvez fosse melhor levá-lo para a delegacia, onde alguns colegas fá-lo-iam ajudar com o serviço. Ele deu um beijo nas bochechas da garota com quem falava e disse para ela procurá-lo depois do show, se afastando em seguida com os policiais. Começou a dizer que ficara devastado com as notícias da morte da garota e que sentiria falta dela e “até mesmo das bizarrices dela.”. Quando questionado a que tipos de “bizarrices” se referia, falou: “Cara, aquela guria tinha uns problemas de afeto fodas. Pra começar, ela só me chamava de papai e ao Carlos, meu amigo, o ‘padrasto’,” caiu na risada “a ele ela chamava de painho. Mas ela só chamava a gente assim na hora de trepar, que, na verdade, era a única hora em que ela chamava a gente, sempre os dois, nunca um só. E, acredite, eu tentei ir com ela sozinho, mas ela nunca topou, sempre queria foder com o papai e com o painho juntos. Não sei se o Carlos conseguiu alguma coisa com ela, mas acho que não. Ela só queria os dois pais pra foder com ela. Como dizem os gringos, ela era ‘total fucked up'”. A conversa com ele rondou esse assunto e o número de vezes que fizeram sexo “umas seis ou sete.” Dispensaram-no pedindo que mostrasse onde poderiam encontrar Carlos e, pouco antes de subir ao palco, tomar o microfone e cantar com sua voz grave e fora do tom da música que a banda tocava, ele confirmou tudo o que Maurício dissera, além de afirmar nunca ter feito sexo com Andrea na ausência de seu amigo “Eu até tentei, cara, mas ela dizia: ‘ou com os dois ou com nenhum. ‘” e confirmara o número de relações: “acho que sete”. Quando perguntado se sabia de algum outro possível amante de Andrea, Carlos disse que havia conhecido Fabrício, mas não sabia de nenhum outro, mas que não duvidava nada vindo dela. Em relação a álibis, estavam bem sólidos e válidos, estando em turnê com a banda em outra região à época do ocorrido.

Voltaram as investigações para o lar de Andrea, procuraram destrinchar a relação que ela tinha com o pai, no entanto, nada confirmava qualquer indício de abuso; em conversa com o pai, explicando sobre seu envolvimento com Fabrício e os outros, sem deixar claro seus desejos por sexo grupal e o fato dela chamar dois de seus amantes de pai, e o pai parecia chocado, disse que nunca soubera de nenhum relacionamento de sua filha e, até onde ele sabia, ele juraria que ela era abstêmia. A mãe, no entanto, que não prestara depoimento anteriormente comentou ter conhecimento da existência de Fabrício, mas mostrou-se tão chocada quanto o pai em relação a Carlos e Maurício. A polícia a investigou em particular, com suspeita de obstrução de investigação, mas a hipótese foi retirada da mesa após algumas perguntas, uma análise do perfil por um psiquiatra e muitas horas de choro. A polícia não tinha mais para onde ir.

Um mês se passou, a investigação perdia o foco a cada dia, a mídia já não noticiava mais nada sobre o caso. Havia cada vez menos rastros do assassino, se é que já houve algum, até que se deu o caso como inconclusivo, sendo arquivado e gerando protestos por parte da família, que referia incompetência da parte da polícia. Três meses depois a família apareceu na delegacia trazendo um pacote com fotos de Andrea sendo torturada e morta. Impresso no verso de uma foto, que mostrava o corpo morto de Andrea cheio de sangue, letras negras diziam: “minha primeira vez.”. 

Dois dias depois, encontraram o corpo de Bianca.

passeio

– Tapioca é uma boa, não?

– Enjoada. O coco fica preso entre os dentes. Fico toda agoniada… – eu não sei quantos minutos e que tipos de argumento você usou pra não comer ali. Minha mente desviou a atenção do que você dizia do mesmo jeito que a gente se pega perguntando quanto tempo conseguiu ficar na frente de uma tevê que está no canal de vendas e a gente sabe que não vai comprar nada dali. Como alguém consegue falar tão mal de tapioca por tanto tempo? Foi nisso que eu fiquei pensando. Em como você se tornou esse tipo de pessoa .

-… Fora que por mais que você escove bem os dentes, sempre vai ter coco na sua boca no outro dia. Além do que a gente nem sabe como eles preparam…

– Sabia que as girafas são mudas?

– Que tipo de comentário foi esse, Roberto? – Você questionou incrédula. Respondi que tinha visto outro dia nessas curiosidades que vem escritas nas embalagens de gomas de mascar. “Acrescentou muito a minha vida”, você respondeu, mas, pelo menos as tapiocas ficaram em paz.

– Bem, quando eu vou ao Jardim Botânico, lá no Rio, tem um sanduíche natural muito bom perto. É uma delícia, você tem que provar um dia.

– Aqui perto também tem um sanduíche natural e é muito bom.

– Você chama “aquilo” de sanduíche? Sem contar que… – Começou de novo! Não agüento! Ainda mais com esse sotaque carioca que me estapeia a cada palavra.

 Olha – interrompi comedido, tentando não ser rude – Sanduíche natural… é a mesma porcaria gelada no mundo inteiro! – Não consegui.

– Ahn Beto, é que lá no Rio – ela aproximou o rosto do meu em um gesto que hoje, nesse exato momento, foi estranho – ele não é natural.

“Porra, como assim?”, pensei. E traído pela minha fisionomia, você piscou o olho e eu resolvi tomar isso como resposta.

Como eu me arrependo disso tudo. Mesmo sendo a primeira vez que você me chamou de “Beto” hoje, o que me fez lembrar os tempos em que tudo era mais simples. Agora, é como se você não tivesse voltado do Rio e eu estivesse conversando com uma atriz de teatro paga para ser você.

– Então – respirei fundo – tem Mac Donalds. Isso TEM que ser igual.

– Não quero nada igual. – a resposta veio em meio a uma sonora e saudável risada – Só quero algo legal. – Considerei um “eu quero algo igual, mas não tão igual. Muito menos essa porcaria”.  E se foi como pensei, eu ainda não entendi. Mas, dane-se. Eu gosto.

– Acho que sorvete é uma boa. Minha ultima tentativa. Sério.

– É. Tá ai. Boa idéia. – O silêncio apareceu por um instante no trajeto e tão logo eu quis que ele fosse embora.

– Fala das novidades de lá. – A frase saiu atravessada entre a tensão do silêncio e meu tempo de fôlego.

– Tudo muito bem. To em um grupo de teatro agora. Conheci o pessoal no Jardim Botânico. – Sabia. Existem dois tipos de atores no teatro. Os que fazem personagens aparecer e os que querem aparecer no lugar dos personagens. Já tentei essa carreira, mas, entrei em dois grupos e ambos tinham muitos desses pseudo-atores. Desisti. Um amigo meu insistiu e hoje encontrou um grupo de atores sinceros e vai muito bem. Mas, o orgulho na voz agora era a medida de suas palavras. – As reuniões são muito boas. Fazem a gente se libertar, viajar, sentir o eu do outro num grande…

– É maconha, né?

– Não!  Que preconceito! – Você relutou no tom e no olhar reprobatório. – Que mente limitada!

– Não é preconceito. Só perguntei se era maconha.

– Não…  Não é só isso. – Negar para afirmar. Coisas de mulher.

– Tem mais droga?

– Não! Quis dizer que também tem os exercícios, as dinâmicas, as passagens de texto, sabe? – Seu deslumbramento por essas coisas me apunhalava. Não conseguia prestar atenção em nada disso.

– Hum rum… E além do Jardim Botânico? Existe alguma vida pra você? – Cada palavra aqui foi exprimida numa tentativa de engolir o desinteresse que eu tinha nisso tudo. Ela pareceu não notar ou simplesmente não se importar.

– Claro! Tanta coisa… Mas, deixa isso pra depois. Fala agora daqui! Passei tanto tempo fora e as coisas parecem ter mudado tão pouco… – Não sei se você realmente queria saber essas coisas, então tentei ser bem prático ao responder para não gerar desgaste.

– Pra falar a verdade, desde que você foi embora não mudou nada.

– Dúvido.

– Na verdade, as coisas sempre mudam, mas sem sair do lugar. É que faz tanto tempo que a gente não se fala que não tem nem como saber o que é novidade.

– Entendo… Estranho, né?

– Nem fala… – O silêncio conseguiu conquistar os eternos três minutos que faltavam até a sorveteria. Ele gritava no meu ouvido milhares de coisas que eu deveria dizer a ela ao mesmo tempo que dizia que eu deveria deixar essa louca e ir embora ao mesmo tempo que falava sobre ficar e tentar ver quanto da Mariana que eu conhecia ainda restava nessa mocinha-do-cabelo-curto-e-roupa-xadrez-que-chora-quando-ouve-los-hermanos.

– Você chora quando ouve Los Hermanos? – Perguntei assim que sentamos na parte externa da sorveteria.

– Não. Você sabe que eu não curto Los Hermanos, Roberto. – Você parecia estar achando isso tudo tão estranho quanto eu. – Por quê? Você chora?

– Não, não! – Ok. Mocinha-do-cabelo-curto-e-roupa-xadrez-e-paremos-os-estereotípos-por-aqui. Às vezes o silêncio poderia apenas calar.  – Eu só queria saber se você tava se traindo por aí.

– Te traindo? – Um olhar inquisidor me tomou o ar sem pedir licença. Eu não disse me traindo, disse? Droga.

– Er… Não quis dizer isso… Eu nem falei isso… – Parei de falar enquanto a risada dela ecoava da rua até os cantos mais obscuros da minha vergonha.

– Você não disse, Beto – disse ainda risonha, segurando minha mão –, só queria saber se você tava me traindo. – Você continuava rindo a medida que eu ruborizava.

A merda é que eu me traio e que ela, mude o que for, ainda tem algo de antes. Esse algo eu ainda não sei o que é e, para descobrir, tem que ser de mais perto, de onde o golpe é mais letal. Mas, não. Ela vai voltar praquele mundo do Jardim Botânico com a gente dela, a arte dela, a droga dela e todas as outras imagens das coisas que ela faz que eu não quero que terminem de se formar em minha mente.

– Vamos logo fazer o sorvete! – Seus dentes apresavam um sorriso de vitória que eu não sei como consigo gostar. Vai saber! É só um sorvete…

A Primeira

Eu lembro que as unhas dela estavam pintadas de preto.

É engraçado como a memória funciona. Eu não lembro, por exemplo, qual era o filme que estávamos vendo, ou ao menos do cheiro dela. Na verdade eu nem consigo lembrar direito do rosto dela. Eu consigo rever as partes constituintes, mas de forma alguma consigo montar elas na minha mente como um todo coerente. Mas das unhas pintadas eu lembro bem porque ela tinha a mania de colocar as mãos no rosto quando estava entediada. Pensando bem é até lógico eu não lembrar do filme. Minha atenção estava em outra coisa, afinal. Ela tinha chegado atrasada na casa onde o pessoal se reunia para ver filme todo domingo. Não nos conhecíamos alem de saber o nome um do outro e ter esse amigo, o dono da casa, em comum. Ela acabou tendo de sentar do meu lado, o único lugar vago. No começo tentei agir normalmente, apesar da minha imensa timidez, até sentir o peso do olhar dela sobre mim. Aqueles olhos negros. Isso é algo que eu nunca conseguiria esquecer, mesmo se eu quisesse. Eram olhos cheios de delicadeza e daquele mistério feminino, aquela coisa natural que só depois de muito tempo eu iria entender. Não lembro se nós conversamos. Eu lembro de algum papo, mas tenho lá minhas duvidas se eu estava em condições de uma conversa genuína. Mas eu lembro que eu a fiz rir. Ela não sorria muito, mas tinha um sorriso verdadeiramente lindo. E então senti a mão dela pousar delicadamente sobre a minha. Se antes eu não conseguia pensar, agora tudo que vinha a mente eram os pulsos descompassados do meu coração. Ela se inclinou na minha direção lentamente e, depois de uma espera que pareceu uma eternidade, meu mundo se preencheu com o doce sabor dos lábios dela.

Foi nessa que eu descobri qual o gosto do paraiso.